quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

No Capítulo XI dos Pequenos Burgueses

(...)

Exemplos da jogada real: o álcool, o amor, o próprio jogo. Também se compram ou se vendem, é verdade. As coisas estão ainda longe da pureza, e daí a dificuldade de distinguir a essência de cada jogada. Mas agora a alma aparece entre a ganga, assume o seu papel, submerge tudo o resto. Álcool, amor e jogo representam por um lado a tentação, por outro o verdadeiro sabor da vida. Fruí-los sem cair em pecado é o trabalho da alma, que inicia então um jogo bastante delicado e procura depurar o sensualismo, o erotismo, afastar cautelosamente certos tabus, não renunciar a nenhum prazer da cama ou da mesa, purificando-os com a inocência sábia: irmos mais fundo na nossa natureza, por amor dela e não de nós, bebendo, amando, jogando, para cumprir a vontade de Deus, que nos manda transfigurar através da vida, palpitar, ser felizes, desde que afastemos a malícia e o gozo egoísta. Tornar o pecado impossível pelo exercício inteligente do pecado. Claro que arriscamos muito mais que patacos. Se cairmos, caímos duma altura medonha, sem salvação possível. (...)

Considerações de D. Álvaro, uma das personagens deste romance de Carlos de Oliveira, sobre os vícios e a vida.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Outros jogadores...

Aqui fica a sugestão de um livro :

Cap.XI - Os Pequenos Burgueses de Carlos de Oliveira

Continua a ganhar. Parecendo que não, o burro e o bridge deixaram-lhe uma conta calada por mês. Os parceiros julgam que faz batota. Sem razão. Nos negócios, sim, tem fama e proveito de grande vigarista. Ali, porém, nunca o apanharam com a boca na botija, nem hão-de apanhar. É jogador até ao fundo da alma, e com a alma não brinca ele. Senta-se, mergulha na tensão do jogo, como se mergulhasse no mistério da missa, e tenta compreendê-lo. Aceita a divindade, quer dizer, o acaso, mas não deixa por isso de o interrogar ou corrigir, quando pode, e em geral sai-se bastante bem. Os outros pesam pouco, pesam apenas na medida em que hesitam, erram ou acertam, influenciando o jogo, influência aliás diminuta porque é fácil prever-lhes os erros, os acertos, as hesitações. Se descobre qualquer aldrabice, o que raramente acontece, deixa andar. O acaso, o essencial, também se faz desses acidentes. Uma vez que se dê por eles, que não passe por parvo diante de si mesmo, quer lá saber. (...)
Até Sábado!